Em meio às grandes discussões do cotidiano sócio-político brasileiro, muito se fala na necessidade de proteger o meio ambiente e de formular políticas ambientais visando a preservação da natureza. Pois bem: é senso comum que a natureza faz um enorme bem ao ser humano, mas sabemos explicar o porquê desse benefício? A seguir, tentaremos desvendar esse mistério.

natureza

Embora o impacto que a natureza tem em nossas vidas seja fortemente reconhecido, normalmente nos limitamos a sintetizar esse impacto nos elementos básicos para a sobrevivência, como água, alimentação, ar puro, energia, dentre outros. No entanto, mais do que isso, a natureza também nos oferece benefícios complementares, mas que são de suma importância, como oportunidades de recreação, lazer e inspiração, bem como benefícios psicológicos, físicos e espirituais. Todas essas contribuições da natureza, cientificamente chamadas de serviços ecossistêmicos, demonstram o quão interdependentes somos em relação à natureza, seja devido nosso impacto em sua biodiversidade, seja na resposta biológica que o meio ambiente nos oferecerá. 

Esses benefícios complementares, em específico, são usualmente utilizados como argumento quando se defende o bem estar relacionado à integração e à moradia próxima de ambientes naturais. Diversos estudos tendem a reforçar a superioridade da vida longe das cidades em relação àquelas dentro de conglomerados urbanos, apresentando dados como a presença de uma taxa de mortalidade menor nas pessoas que vivem em áreas mais verdes ou apresentando evidências de um menor risco de mortalidade para habitantes que vivem a cerca de 500 metros de praças ou parques. 

Não se limitando a índices gerais, a ciência aponta diversos fatores e dados que contribuem para a construção de uma imagem positiva da vida próxima à natureza, como veremos a seguir:

Proteção à saúde mental

Há uma sensação generalizada de que a vida dentro das cidades não é fácil. Quem já viveu ou vive em meio à extrema urbanização sabe o quão difícil é desligar-se por um momento, por mais breve que seja, e reconectar-se com a própria mente, exercitando o pensamento e o raciocínio, relaxando e sentindo-se bem consigo mesmo. Ao invés disso, a poluição – atmosférica, visual e sonora – domina, descarregando seus males em nosso espírito e acumulando tanto estresse que ao final do dia nos sentimos exaustos mentalmente. E, em meio à esse cansaço causado pela agitação da vida urbana, um pequeno contato com a natureza – desde matas fechadas a parques urbanos – pode fazer muita diferença na prevenção de doenças psico-cognitivas a longo prazo. 

Exagero?  Um estudo do Centro Médico Universitário de Amsterdã diz que não: pessoas que vivem próximas à natureza teriam 21% menos chance de desenvolver depressão. Já em outro estudo, um levantamento reiterou o argumento de que morar perto de áreas arborizadas e áreas verdes pode diminuir o risco de depressão em adolescentes.

Além disso, tendemos a nos sentir de uma forma completamente diferente em meio a natureza do que em meio a cidade. Essa sensação, inclusive, é respaldada por estudos que afirmam que, ao termos contato com um ambiente arborizado e natural, há uma diminuição significativa no nível de cortisol, hormônio do estresse, em nossa corrente sanguínea. Ademais, é dito que uma vida próxima a um corpo de água natural, como rios, lagoas e mares, pode também auxiliar na redução do estresse

Não obstante, o contato com a natureza pode auxiliar na manutenção e no desenvolvimento de habilidades recorrentes no dia-a-dia, como a memória e a concentração. Até mesmo residir em locais com maior presença de pássaros tende a gerar um efeito positivo, tornando as pessoas menos propensas a sofrer de depressão, ansiedade e estresse.

Fortalecimento da saúde física

Engana-se quem pensa que os benefícios envolvidos na proximidade com a natureza se restringem à esfera mental. Um estudo apresenta que, quanto maior o número de árvores em um quarteirão, proporcionalmente maior é a sensação de saúde auto-relatada pelos moradores da região. Mais especificamente, outro estudo descobriu, após entrevistarem mais de 108 mil mulheres, que a taxa de mortalidade daquelas que viviam em áreas mais verdes era 12% mais baixa do que aquelas vivendo em centros urbanos menos arborizados, além de riscos 41% menores para morte relacionada a doenças renais, 34% em casos de doenças respiratórias e 13% em casos de câncer.

Mesmo uma simples atividade como caminhar em ambientes naturais pode fazer um imenso bem à saúde do corpo humano, aumentando a quantidade de glóbulos brancos na corrente sanguínea e causando diminuição nos batimentos cardíacos e na pressão arterial, além do nível de cortisol. Quem confirma isso são os pesquisadores da Universidade de Chiba, no Japão, por meio de uma pesquisa publicada no periódico Environmental Health and Preventive Medicine. É dito que até mesmo o sistema nervoso simpático e o sistema nervoso parassimpático possam ser afetados positivamente, mesmo que de forma mais sutil.

Contudo, por mais que quanto maior a proximidade à natureza, melhor, as vezes nossa agenda e nossa rota de locomoção não nos permitem dar ao luxo de aproveitar a natureza selvagem ou mesmo frequentar parques arbóreos com frequência. Neste caso, a dica é buscar trazer ao máximo a natureza para dentro de casa; inclusive, já demos dicas de como fazer isso por aqui. Em um artigo foi afirmado que a presença de plantas em um escritório na Noruega fez com que as reclamações sobre dores de garganta diminuíssem em 23% depois que o mesmo foi decorado com plantas. Há quem diga até que a presença de plantas torna a sensação de dor mais suportável. 

Estímulo à atividade física

Ao final de um dia cansativo e após horas no transporte coletivo, tudo que você mais deseja é simplesmente um descanso. Afinal, quem aguenta atravessar a cidade dia após dia e ainda ter fôlego para sair de casa, em meio ao concreto da cidade, e se exercitar? 

Pois bem, um estudo afirma que estar em meio ao verde auxilia na tomada de decisão e estimula a atividade física, fazendo com que a pessoa se sinta mais motivada a praticar esportes e atividades aeróbicas. Inclusive, não há a necessidade de gastar mais tempo no transporte visando treinar exclusivamente numa natureza pura; parques, vias arborizadas, beira-mar ou em torno de rios e lagoas já promovem fortes efeitos positivos durante a prática física. 

Em uma outra pesquisa, é afirmado que há uma visível melhora na autoestima e no humor após a prática esportiva em meio a natureza. A própria atividade física em si é uma catalisadora de substâncias que promovem a alegria, liberando neurotransmissores como a dopamina e a serotonina, e, quando aliada à proximidade da natureza, pode ser uma importantíssima forma de medicina preventiva, tornando o corpo e a mente mais fortes.

Função preventiva

Uma das maiores forças de se viver próximo à natureza é, sem dúvidas, seu potencial como medicina preventiva. Isso acontece por uma soma de fatores, mas, resumidamente, pode-se dizer que dois motivos são os principais: estar longe das grandes cidades e estar próximo do nosso habitat natural.

No urbano, o contato frequente e acentuado com poluentes do ar irrita as vias respiratórias e ocasiona doenças que afetam os pulmões e o sistema respiratório como um todo, assim como acentuam casos de pessoas que já tem predisposição a doenças como rinites, sinusites. Além disso, existe dentro das grandes cidades um fenômeno conhecido como ilha de calor, formado devido ao alto grau de poluição atmosférica nestas regiões, fazendo com que o clima fique mais quente e abafe a cidade mais do que o normal em alguns períodos do ano. 

Já nos ambientes naturais, além da menor presença de poluentes oriundos das fábricas e dos automóveis, as áreas verdes e a arborização tendem a promover uma melhoria geral na qualidade do ar, filtrando poluentes e contribuindo para o aumento da umidade relativa, reduzindo o risco de desenvolvimento de doenças respiratórias. Ademais, essas mesmas áreas tendem a melhorar a sensação de conforto térmico e a atenuar a radiação solar, além de emanar sua característica sensação de suavidade, tranquilidade e refrescância.

Outro importante benefício de se estar próximo de um ambiente natural é a maior produção de vitamina D em nosso corpo – uma vitamina produzida pelo organismo somente quando se há contato direto com o sol. Inclusive, os sintomas de deficiência de vitamina D são muito semelhantes aos sintomas de depressão leve, provocando até mesmo a chamada depressão sazonal em algumas regiões de baixa exposição solar durante o inverno.

Influenciado por essa propriedade e potencialidade preventiva, existem diversos locais no Japão onde se pode praticar o shinrin-yoku, conhecido em português como banho de floresta, uma forma de terapia florestal que consiste em, basicamente, entrar em contato com a natureza –  seja por meio de uma caminhada, uma atividade física ou apenas de um descanso apreciando o verde. Dizem até que o risco do desenvolvimento de miopia pode ser reduzido quando se realizam atividades em meio a natureza regularmente, de acordo com um estudo realizado em uma escola no Taiwan.

Conclusões e reflexões

Mas, por fim, qual a explicação exata para a sensação tão boa que a natureza causa no ser humano? 

Na realidade, nem mesmo a ciência chegou a uma resposta definitiva. Há teorias que apostam na herança genético-evolutiva (como a teoria psico-evolutiva e o conceito de biofilia), outras apostam na influência sócio-cultural (relacionada ao conceito de fuga temporária da constante pressão e exigência que a rotina nas cidades traz consigo), enquanto outras apostam no poder do aspecto visual da natureza (como a teoria da restauração da atenção). Isso sem contar axiomas como a influência arbórea na melhor qualidade do ar ou na influência negativa que a poluição visual-sonora das cidades provoca no ser humano. 

A maior probabilidade, portanto, é a de que uma soma de fatores, desde os positivos da natureza até os negativos da cidade e desde os culturais até o genéticos, façam com que desenvolvamos essa melhor relação com o natural e nos sintamos melhor em meio a natureza. Pois então, a maior dica de todas é experimentar e vivenciar a natureza de todas as formas possíveis! Relacionando-se ao máximo com o meio ambiente e aproveitando cada momento em meio a mãe natureza 🙂