Como manter o coração aberto para novas relações em meio a tantas despedidas?

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Fotografia de Davi Canella

Aqui em Inkiri Piracanga estamos sempre conhecendo, criando e cultivando amizades profundas com as pessoas que chegam em missões de alma muito parecidas com as nossas. Mas também estamos sempre vendo essas pessoas queridas partir. Será possível não sofrer com isso? Como continuar se vulnerabilizando e se abrindo para amar novas pessoas com a constante ameaça do trauma da despedida?

A vida em comunidade acelera nossos processos de evolução, uma vez que não dá para fugir da intensidade e tensões dos encontros e desencontros com as pessoas. Isso a torna uma poderosa universidade da vida, pois ela se constrói a partir dos relacionamentos. Mas às vezes, por mais informada que você esteja na hora que faz sua matrícula, você ainda pode se surpreender com a profundidade desses temas na prática. Especialmente na sustentação do coração aberto em meio a tantas despedidas.

Aqui as pessoas estão sempre de passagem. Chegam para cursos, imersões, períodos sabáticos ou para morar por um tempo indeterminado. Às vezes pensam que vieram para uns dias, mas acabam ficando meses. Às vezes chegam querendo ficar “para sempre”, mas acabam partindo depois que suas projeções caem. Outras vezes chegam sem esperar nada e acabam criando raízes sem perceber. No fim, cada pessoa fica o tempo que realmente precisa, e não o tempo que calculou. O fluxo da vida revela o que é verdadeiro.

Como uma egrégora de almas viajantes, que valoriza muito os sonhos e a liberdade, vivemos nos entregando aos chamados do coração e voando para onde for necessário. Assim, na prática, estamos sempre coordenando as nossos caminhos para que haja presença coletiva e liberdade individual na medida correta. Esse é um dos desafios da impermanência.

Essas despedidas tornam-se oportunidades para aprendermos a fechar bem os ciclos e a amar de verdade, com liberdade. O músico Davi Canella transformou esse tema em uma das canções mais clássicas dentro da Comunidade Inkiri:

“Passarinho é liberdade
Colhe da vida a beleza do lugar
Traz no olhar uma bagagem
De quem já vai viajar
Deixa aqui muita saudade
Muita de alegria de cantar
Voa pro mundo em liberdade
Plantar suas flores por onde pousar
Passarinho um dia voa
Passarinho um dia há de voar
Voa sem medo passarinho
Que se precisar pode voltar”

(“Passarinho” de Davi Canella)

Essa transitoriedade afeta todo mundo de alguma forma e tem implicações em diferentes esferas da nossa vida. Destaco aqui o efeito das despedidas recorrentes para a sustentação do coração aberto para novas relações. Nos despedimos de pessoas amigas, irmãs de alma, hermanos de casa, irmãos totem, parceiras e parceiros de relacionamentos afetivos, sexuais e amorosos.

Vemos partir as pessoas que nos ensinaram a amar e confiar o suficiente para nos revelarmos com verdade. Amizades essenciais para abrirmos o coração e acreditar no divino de cada ser humano. Pessoas que nos ensinaram o valor de cada momento-semente que dedicamos para a conexão humana. Momentos em que plantamos presença e união em forma de palavras, olhares, abraços, risadas, refeições, reuniões, projetos, leituras, músicas, fogueiras, mergulhos, viagens, entre tantas outras trocas.

Ao valorizar e desejar mais desses encontros, às vezes nos deparamos com uma grande vontade de que essas pessoas continuem aqui. Entender e apoiar todos os incríveis motivos dos seus movimentos para longe, nem sempre basta para dissolvermos o desejo que elas continuem fisicamente presentes na nossa vida. Às vezes sentimos que necessitamos de uma garantia concreta da continuidade da nossa conexão. E sem encontrar essa ilusória segurança, vivemos despedidas temperadas com sofrimento

Dessa forma, o tchau pode chegar como uma ruptura, uma morte. Acenamos como um “até logo”, mas no fundo sentimos como um “adeus”. E como não sentir? Como podemos nos preparar para a próxima despedida?

Buscar essas respostas nos rendem materiais de estudo fundamentais para lidar com as idas e vindas dos amores e com a impermanência da vida. Às vezes algumas pessoas podem aparentar estar imunes e calejadas aos efeitos das despedidas, mas no fundo estamos apenas sentadas em lugares diferentes do mesmo barco.

Estamos juntas/os aprendendo não apenas a despertar o amor, mas a sustentá-lo acordado e guardando as portas dos nossos corações bem abertas. Estamos encarando um dos mais complexos obstáculos divinos da vida: estamos juntas/os tentando derrubar o véu ilusório da separação e reconhecer a nossa unidade, ao mesmo tempo que nos revelamos como seres irremediavelmente sozinhos.

Estamos sozinhas/os, carregando em nós a fonte criativa e divina de todo amor que precisamos. Mas, ´por outro lado, também estamos conectadas/os. Quando ignoramos a realidade dessa conexão, nos afastamos e até nos deprimimos. Esses fatos coexistentes se relacionam muito bem quando nos comunicamos com a solidão da outra pessoa, nos reconhecemos no mesmo barco balançante, e aceitamos verdadeiramente a sua liberdade de ir embora a qualquer hora.

Para aceitar de verdade a liberdade da outra pessoa, precisamos primeiro parar de esperar o conforto do seu colo e de associar a sua ausência ao abandono. Só assim vamos conseguir sentir a Unidade e a fragrância do amor maduro que sobrevoa o ar da liberdade.

Nessa perspectiva, a despedida pode tornar-se um ato revolucionário de amor. O Adeus torna-se um desejo genuíno que o vôo da outra pessoa seja lindo. Que seja alto e caloroso, bem perto do sol. Que sua partida seja em direção aos seus sonhos e a-Deus.

Dedico esse texto a todas almas livres e amadas que pousaram aqui e depois tiveram coragem suficiente para partir em busca de seus sonhos.

Raquel Taffari