União, confiança e troca de experiências integram a proposta da Comunidade que Sustenta a Agricultura

E se fosse possível quebrar a velha relação entre consumidores e agricultores baseada nos riscos de mercado e na variação de preços? O que aconteceria com o modo como vemos a nossa alimentação? Tem gente apostando que essa seria uma grande mudança, “da cultura do preço para a cultura do apreço”.

A proposta tem nome: chama-se CSA, ou Comunidade que Sustenta a Agricultura, e está em fase de implantação aqui em Inkiri Piracanga. Nesse modelo, a agricultura é apoiada pela comunidade e o agricultor deixa de vender através de intermediários, contando com a participação das pessoas (os “consumidores”, no modelo comercial) para o financiamento e escoamento da produção. A CSA é uma forma diferente de lidar porque cria relações de confiança, aprendizagem e apoio mútuo entre todos os envolvidos: as pessoas, a Terra e seus ciclos naturais.

O conceito de CSA engloba uma visão holística da alimentação e da integração com a Natureza. Um dos principais objetivos das diversas CSAs espalhadas pelo mundo é procurar não apenas reverter o fluxo de abandono das zonas rurais, como promover a autoestima de quem lida com a terra através de dimensões integradas que envolvem:

  • economia associativa e da consciência,
  • nutrição integral,
  • agroecologia,
  • princípios da Escultura Social.

Segundo um dos articuladores da CSA Inkiri Piracanga e membro da Comunidade Inkiri, Lucas Rotta, a proposta muda tanto a visão que o consumidor tem do alimento, quanto a realidade dos produtores, que sempre trabalham com muitos riscos. “Com a parceria, você tira o produtor dessa zona de risco”, destaca. “Muitas vezes ele colhe muita coisa e quando vai vender na feira, acaba perdendo uma certa quantidade. A CSA é o sistema em que isso já não acontece mais”, comemora.

COMO FUNCIONA O SISTEMA

Ao estruturar uma CSA, produtores e consumidores criam um forte elo com a produção agroecológica e orgânica. Nesta relação, os consumidores passam a ser coagricultores, selando um acordo que garante a compra dos alimentos durante um período determinado, de seis meses a um ano, e também arcam com os riscos, como a quebra de um trator, por exemplo. Em contrapartida, os agricultores garantem a variedade, a qualidade e o cuidado na produção dos alimentos.

“O sistema funciona da seguinte maneira: quanto eu gasto com alimentação por mês? Gasto R$ 200. E meu vizinho? Ele gasta mais R$ 200 e assim por diante. Ao juntar 20 pessoas que gastam esse montante por mês com alimentação, temos cerca de R$ 4 mil”, explica Lucas. “Assim, essa comunidade garantiria o pagamento de R$ 2 mil por mês ao agricultor e destinaria os outros R$ 2 mil para um fundo de reserva para gastos com manutenção e outros riscos.”

NOVA DINÂMICA NA AGRICULTURA

Membros da Comunidade Inkiri acompanham produtores da COmunidade Massaranduba

Nesta nova dinâmica, o consumidor se torna corresponsável pela produção e tira o agricultor da zona de risco, trazendo um equilíbrio maior à relação. Os produtos deixam de ter preço, já que o fator que dá o preço, ou seja, o risco de mercado, não existe mais.

Ao participar de um sistema de CSA, o agricultor também precisa sair de sua dinâmica habitual, como produzir um único produto como carro-chefe. “Assim, os produtores de tomate ou de inhame têm de passar a fornecer, no mínimo, de dez a 15 itens. Eles precisam se adaptar a uma nova realidade, mudando seu tipo de roça e de plantio. Aí é que entra a produção agroecológica”, afirma Lucas.

Nessa relação de parceria, a CSA traz a necessidade daquele que recebe o alimento estar realmente no dia a dia do produtor, de criar um laço verdadeiro de amizade. “Há uma troca da cultura do preço do alimento pela cultura do apreço da relação”, explica Renata Navega, articuladora de CSAs em Brasília.

“Quando olho só para o preço final, olho só para a minha capacidade de compra, mas quando compreendo os custos, conheço os produtores e me torno corresponsável por aquela produção, tudo muda. Passo a pensar no cultivo de uma relação mais profunda, de abundância e cuidado, focada em um propósito maior”, diz Renata.

AS CSAs EM INKIRI PIRACANGA

No final de dezembro de 2017, Renata e Thiago Leão, também articulador da CSA Brasília, estiveram em Inkiri Piracanga. A partir da visita, iniciou-se uma troca de informações através do Conselho da Alimentação da Comunidade Inkiri. “Ao compreendermos a proposta, ficamos maravilhados e quisemos trazer o movimento para cá. Cerca de duas semanas depois, já havíamos conseguido nos articular para iniciar os trabalhos”, recorda Lucas.

Ele e Juliana Faber, também membro da Comunidade, passaram a encabeçar o movimento local. Os coagricultores (ex-“consumidores”) foram encontrados entre as pessoas da comunidade e projetos locais, como o Restaurante Inkiri e o Açaí do Mar. Neste movimento, notou-se a possibilidade de fazer um pouco diferente, com o Restaurante Inkiri tornando-se o responsável por uma única CSA. Assim, logo de início, Inkiri Piracanga planejava duas CSAs: a do restaurante e a das famílias e demais projetos.

No final de fevereiro de 2018, os produtores rurais parceiros já haviam sido definidos. Eles são da Comunidade Agrícola Massaranduba, um assentamento quilombola de Maraú, próximo a Cachoeira do Tremembé. “Há sete anos, eles trabalhavam no lixão e tinham uma vida de subsistência muito precária, mas se inscreveram no Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e conseguiram esse terreno. Apesar de ainda viverem em condições difíceis, têm seu próprio terreno, onde plantam e conseguem levantar recursos para se manterem”, diz o articulador.

Grupo é liderado principalmente por mulheres, Na foto, a recepção feita por elas para o pessoal de Inkiri Piracanga

Segundo Lucas, o grupo de agricultores é composto por 35 famílias, que produzem alimentos orgânicos e são lideradas principalmente por mulheres. Elas estão à frente das plantações e das roças. Outras famílias locais trabalham sobretudo com o cacau e com a seringa.

Depois das visitas iniciais, o assentamento já dá os primeiros passos para a criação de uma área de produção específica para o Restaurante Inkiri. Todo este movimento também culminou no desenvolvimento de um curso de introdução ao conceito das Comunidades que Sustentam a Agricultura, ministrado pelo pessoal do CSA Brasília no mês de março.


>> Curso Comunidades que Sustentam a Agricultura – CSA :: 22 e 23/03


4 comments to “Uma nova alimentação: da cultura do preço à cultura do apreço

    1. Gratidão, Pri! Estamos muito felizes com esse movimento que vem acontecendo por aqui porque ele engloba diversos dos nossos focos de atuação, como a alimentação, a ecologia e as questões humanas e sociais. Estamos no começo, mas já conseguimos visualizar essa “cultura do apreço”! É mais uma ação em busca do ciclo sustentável completo!

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