Olhos nos olhos, mãos dadas, sorriso no rosto, coração aberto em sincronia com a coreografia. Os pés tocam o chão no ritmo da música. As danças circulares sagradas estão fortemente ligadas às nossas culturas ancestrais. Elas valorizam todo tipo de virtude humana e têm como grande característica a união entre as pessoas. Adultos, crianças e idosos fazem a ciranda e dançam todos juntos, na mesma roda.

Nas danças circulares, todos os participantes estão conectados, permitindo uma imensa troca de energia e forte consciência do todo. Desta forma, a dança circular é muito mais do que um estilo de dança. Ela é uma manifestação cultural que rompe com conceitos de hierarquia e superioridade e trabalha valores humanos profundos.

Para a focalizadora de danças circulares de Inkiri Piracanga, Maíra Sagnori de Mattos, a dança circular é uma experiência de unidade muito leve e divertida e uma forma de enviar uma mensagem de paz para o mundo. Na roda, “todos são um”, são iguais dispostos a cooperar com o outro.

Originadas em diversas partes do mundo, as danças circulares têm sido passadas de geração em geração. Na atualidade, muitas danças foram criadas a partir de músicas recentes. Mas, independentemente de seu tempo, elas alimentam uma nova forma de vida através de rituais que quebram velhos conceitos de separação, como acontece em lugares como Inkiri Piracanga, aqui no sul da Bahia, ou na Comunidade Dedo Verde, na capital paulista.

“Todo tipo de virtude humana é proporcionada nas danças circulares. Bondade, lealdade, honestidade, empatia, compaixão, sabedoria, a calma, a paciência, a força, o domínio sobre si. Tudo isso é proporcionado numa roda de danças circulares e a grande virtude é a união de todas essas virtudes”, afirma a focalizadora e criadora do Festival Bela Vida de Danças Circulares, Manuela Barroso.

Benefícios para quem dança

As danças circulares também trazem bem-estar físico, emocional, mental, energético e social. Elas nos estimulam a:

  • Olhar o outro de igual para igual
  • Expressar nosso amor e nossa humanidade
  • Aprender através do apoio mútuo
  • Confiar e respeitar o outro
  • Praticar a cooperação
  • Resgatar os valores humanos
  • Despertar de relacionamentos saudáveis
Saudação em dança circular: olhos nos olhos, conexão e respeito ao outro

No contexto emocional das danças circulares, o participante tem a oportunidade de expressar positivamente seus medos, sentimentos e angústias, fazendo da experiência da dança em grupo um verdadeiro trabalho de cura e autoconhecimento. A dança circular também trabalha o autocontrole, a consciência corporal e a autorresponsabilidade.

“A dança circular transforma os meus dias, porque sempre que eu danço minha vibração se eleva e eu me sinto com mais vitalidade, e ao longo dos anos eu vejo como a prática me promove um equilíbrio profundo e desperta mais amor por mim e por todos os seres, e a troca de energia me torna mais plena e mais presente nas minhas relações”, afirma Maíra.

A pesquisadora Julia Landau teve contato com as danças circulares pela primeira vez no início de 2017. “Inicialmente, eu achava algo muito infantil. Via as danças e não me interessava, mas quando dancei a primeira vez, gostei muito, apesar de não me entregar completamente”, recorda Julia. “Porém, depois de uma dança específica, em que olhamos nos olhos uns dos outros e fazemos uma saudação, passei a ver a dança circular por outro ângulo”.

De acordo com Julia, entrar numa roda de dança circular significar ficar mais leve e feliz, rir de si mesmo, dos seus tropeços, se abrindo para o outro. “Me sinto feliz e leve. Vejo a dança como um relaxamento conjunto em que todas as pessoas entram na mesma vibração. É uma pausa dos nossos problemas. Agora, sempre estou presente nas rodas de dança”.

Rodas como rituais

Danças representam momentos de leveza, felicidade e valorização da sabedoria ancestral

Na história da Humanidade, as danças circulares sempre estiveram presentes e fazem parte da nossa sabedoria ancestral. Os povos sempre dançaram para celebrar a chuva, o sol, as estações, os plantios, as colheitas e os ciclos da vida, como os nascimentos e mortes. “A roda de dança evoca esse símbolo ancestral de união, paz e celebração, pois todas as culturas humanas dançavam para ritualizar momentos importantes”, destaca Maíra.

Realizar rodas de danças como rituais sagrados, abre as portas para a consciência coletiva e de que estamos seguindo caminhos que foram abertos pelos que chegaram antes de nós. “Elas são danças que unem nossos povos e dão força às nossas próprias comunidades”, diz Manu.

História recente das danças circulares

O bailarino e pesquisador de danças étnicas Bernhard Wosien é uma das maiores referências mundiais quando o assunto são as danças circulares. Depois de se dedicar à pesquisa por anos, Wosien foi convidado a ensinar uma série de coreografias para os moradores da comunidade de Findhorn, na Escócia, em 1976.

Assim começava o atual movimento internacional das danças circulares, enraizado em uma cultura artística influenciada pela vida comunitária. Findhorn continua a promover anualmente, no mês de julho, o Festival Internacional de Danças Circulares Sagradas. Na América Latina, uma grande referência é o tradicional Festival de Verano de Córdoba (Argentina), organizado pelos focalizadores Pablo Scornik e Sérgio Malqui.

“Existe uma comunidade de danças circulares e hoje convivemos com facilitadores de diversos lugares que tem afinidades entre si, entre seus trabalhos e seus propósitos”, afirma Manu.

Aqui no Brasil, esse movimento atual das danças circulares teria chegado por volta dos anos 1980, com Sara Marriott, ex-moradora da comunidade escocesa, que veio para Nazaré Paulista, no interior de São Paulo.

Festivais e encontros

Proposta dos festivais é apresentar a diversidade das danças circulares e aproximar pessoas

Hoje, além das práticas permanentes, diversos lugares propagam as danças circulares através de encontros e festivais. Estas são as melhores formas de conhecer e participar deste movimento cultural que chega a ser um estilo de vida.

Segundo Manu, os festivais têm a proposta de fazer com que muitas pessoas possam saborear a diversidade das danças, um leque de opções a ser degustado por alguns dias. “Assim, os festivais de danças circulares reúnem uma variedade de focalizadores, com experiências diferentes e com o olhar único que cada um tem para essas rodas, por conta de uma filosofia, de uma visão, de uma emoção sincera que cada um sente e deposita dentro de sua dança”, explica.

“Cada uma das danças traz potenciais diferentes, permitindo que cada um experimente um pouquinho dos caminhos dessa diversidade; cada caminho para um sentimento diferente. Isso faz da dança circular um instrumento muito poderoso sobre o que podemos sentir”, afirma Manu.

Dance para aprimorar a humanidade

Rodas também têm a essência e os valores que unem as pessoas

Ao perceber como estamos como humanidade e com essa verdade de separação uns dos outros vindo à tona, as danças circulares podem oferecer muito para a transformação da sociedade.

“Percebo que as rodas de danças circulares, por permitirem o encontro dos olhares e o fluxo de energia entre todos que estão dançando, promovem harmonia e integração, além de trazer muita leveza”, celebra Maíra.

“As danças circulares realmente podem nos relembrar o que nos une, o que nos faz nos unirmos aos outros. Tem muita coisa em comum entre eu e a pessoa que é mais diferente de mim que, se a gente fosse pensar na possibilidade de convivência, iria exigir um respeito forte. E as danças circulares trazem esse respeito para o coração, trazem esse respeito para um sentimento muito profundo de que eu sou um com o outro”, afirma Manu. “Então, a dança circular está se mostrando o movimento para aprimorar a humanidade que temos dentro da gente. De reconhecermos isso”, conclui.


Confira informações sobre o próximo festival em Inkiri Piracanga

>>> IV Festival Bela Vida de Danças Circulares – Entre Mundos e Sonhos
19.01.2018 – 24.01.2018